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 Prólogo - Loba Branca (Heidi)

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Arvedui
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MensagemAssunto: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Dom Ago 24, 2014 7:16 pm

Aquela região do mundo, fria e isolada, era conhecida pelos humanos como Bosque dos Lobos. Não que os incautos soubessem o que realmente vivia ali. Mas sempre escutavam os uivos. Ninguém se aproximava dali, todos temiam aquele pequeno maciço florestal sob a sombra das montanhas. Não havia aldeias próximas. O assentamento humano mais próximo localizava-se a meio dia de viagem, mas nenhuma rota comercial dessa aldeia passava perto da floresta em que instalada a alcateia de Loba Branca. Raramente algum viajante perdido passava por aquelas terras, mas desde que não adentrasse muito fundo a floresta, os lobos pouca atenção lhe davam. Assim, era bastante raro, para aquele povo pacato, porém feroz, ser perturbado por qualquer indivíduo não esperado.

Desde a última batalha, haviam expulsado do vale sob as montanhas todas as alcateias rivais, de modo que viviam agora em razoável segurança e tranquilidade, mas sempre vigilantes. Assim, já há alguns anos, a aldeia havia encontrado tranquilidade para aprofundar seu autoentendimento, seu autocontrole e sua capacidade de comunicação com a Umbra. A vida ali era tranquila, embora vivessem sempre com o receio de alguma invasão, de alguma visita inesperada. Ou, talvez, esse fosse apenas o modo melancólico com que os lobisomens encaravam a vida: sempre prontos para alguma nova tribulação. Não que fossem seres pessimistas, mas sua vida era tão carregada de dores que, com o tempo, aprendiam a sempre esperar uma nova dor, a sempre estar prontos pra ela, de modo que pudessem passar pela provação com a serenidade que lhes é característica.

Naquela manhã, Loba Branca dirigira a primeira ronda, observara a troca de sentinelas, acompanhando de perto todo o trabalho de segurança e manutenção das fronteiras. Era por isso que a respeitavam: todos a viam como alguém que não fugia das responsabilidades, alguém com quem se poderia contar, alguém que não fugiria do perigo para salvar a própria pele, enfim, alguém que protegeria o mais fraco do perigo, mesmo que em detrimento da própria vida.

Agora, após a rendição das sentinelas, Loba Branca instruía os pequenos. Eles ainda aguardavam pela primeira transformação, cheios de dúvidas, temores, expectativas... cabia à Loba Branca dar-lhes a tranquilidade necessária para enfrentar também essa etapa. Todos a admiravam, por fim, em virtude de sua relação íntima com o mundo espiritual. Ali estava alguém que travava contato com a sabedoria dos espíritos. Alguém que mesmo na juventude, já era detentora de grande sabedoria e destemor.

Loba Branca contava histórias aos pequenos, quando o barulho de passos a fez olhar para trás e perceber o jovem Fúria Silente postado ali atrás dela. Ele não tinha voz, comunicava-se apenas com gestos, embora entendesse tudo o que lhe era dito. Faz um gesto urgente para que Loba Branca o acompanhasse.

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Heidi Cavalieri
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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Dom Ago 24, 2014 8:51 pm



Nos últimos tempos, a calmaria imperava soberana por aquelas terras. Sem perturbações, sem nenhuma ameça iminente, até mesmo o mundo espiritual estava quieto demais.

Havia algo estranho acontecendo, só não sabia ao certo o que, mas logo desvendaria. Iria mais tarde, andar pela Umbra, questionar alguns espíritos o motivo de tanta calmaria, era sempre assim, um momento de paz para a loucura posterior.

Depois da troca dos sentinelas, a sua parte preferida do dia: ensinar aos filhotes, como se portar, como se acalmar, e o principal, fortalecê-los mentalmente, pois a transformação não será apenas física, se não tiver preparado, o turbilhão de sentimentos irá consumi-los.

Enquanto contava histórias, sente a presença de Fúria Silente, vira-se para ele, passa seus olhos calmamente, ali estava um lobisomem de honra, apesar da sua vida sofrida, conseguiram resgatar o seu lado mais bondoso, não deixando ele entregar-se a besta por completo.

Entendendo o seu gesto, levanta-se, passa a mão no cabelo de um dos filhotes, e com a mesma calma de sempre, diz:

- Com licença, mais tarde terminamos aqui.

Faz um sinal com a cabeça, e em seguida, acompanha Fúria.
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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Seg Ago 25, 2014 11:59 am

O lobo mudo corria, corria muito, corria um uma velocidade elevada até para os padrões da tribo. Mesmo na forma hominídea sua agilidade era impressionante, e seus olhos não perdiam um detalhe sequer do terreno enquanto suas pernas ágeis desviavam das irregularidades do terreno e ganhavam a mata mais fechada. Loba Branca o seguia com a altivez de sempre.

Os dois percorreram um trecho de aproximadamente 3 quilômetros dentro do mato cerrado.  A xamã já se perguntava se aquilo teria algum propósito, quando o jovem estancou de repente. À sua frente, Loba Branca podia ver o pequeno córrego cristalino que cortava o bosque em vários pontos. Às suas margens, pequenas plantas aquáticas de um verde cinematográfico coloriam a paisagem. A água corria rápida.

Parado à beira do córrego, agachado próximo ao chão, estava o líder da alcateia, Kord: imenso em seu tamanho, mesmo na forma hominídea. Calado, soturno, de olhos duros e fala rouca. Olhava fixamente para um ponto próximo às folhas verdes da margem do córrego, ponto para o qual também apontada Fúria Silente. Observando o ponto para onde apontava o jovem, Loba Branca pode perceber o que tanto chamava a atenção dos dois: um rastro de sangue vermelho-escuro muito visível.

Kord virou-se para a xamã, encarando-a com aqueles olhos duros de quem nunca sorri.

- Meu olfato me diz que esse sangue não pertence a qualquer criatura que habite este bosque. - levantou-se, dando passagem à xamã - Examine. Diga-me o que acha.

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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Seg Ago 25, 2014 7:16 pm

A cada metro que os lobos percoriam, podia sentir o seu sangue esquentar cada vez mais, sabia que tinha alguma coisa acontecendo, não era uma suspeita infundada, e quanto mais longe do coração da alcateia iam, essa certeza no coração da lupina aumentava.

Apenas o barulho dos passos apressados, dos corações batendo forte e do vento que uivava próximo aos seus ouvidos.

Não perde o rítmo em nenhum momento, estava acostumada a percorrer longas distâncias correndo, mesmo na forma humana. Assim que chegam ao ponto desejado, respira fundo e fecha os olhos, sabia que não era uma coisa boa.

Tão logo Kord explique o que podê apurar, a lupina apenas abaixa a cabeça em sinal de respeito e se dirige para a beira do córrego.

Se agacha, olha fixamente para o sangue, parecia estar fresco ainda, pela tonalidade em que reluzia. Pega um pouco da terra com o sangue, esfrega pelas suas mãos e leva as narinas, tentando identificar se era sangue humano ou animal.

Tentaria, antes de ter que entrar na Umbra, falar com Folha de Outono, um espírito que lhe acompanha em todos os momentos, que sempre esteve por perto para lhe proteger e lhe guiar.

Levanta-se calmamente, vira-se para Kord e Fúria Silente, e ao seu modo, lhes respondem:

-Me dêem alguns minutos.

Dito isso, ela pega um graveto e risca no chão um círculo, feito isso, deita dentro dele com os braços abertos e concentra-se o máximo que pode, tentando contato com seu mentor.

“Folha de Outono, você sabe que meu tormento não é de hoje, vendo esse rastro de sangue, a minha angústia só faz aumentar. Por favor, diga-me, mostre-me o que ocorreu aqui.”
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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Ter Ago 26, 2014 9:21 pm

Tão logo Loba Branca inicia seu ritual, o clima ao redor do trio muda. O calor agradável do verão os deixa por alguns instantes, e começa a soprar um vento frio típico do outono. Algumas folhas verdes caem das árvores ao redor, quando o vento sopra um pouco mais forte, mas tão logo deixam os galhos, assumem uma tonalidade marrom, lembrando as folhas mortas que caem das árvores durante o período outonal.

Kord e Fúria Silente olham ao redor abobalhados. Embora soubessem da íntima ligação de sua xamã com um espírito da Umbra, sempre era surpreendente quando esse espírito anunciava que sua presença estava ao redor. Não podiam ouvir nada do que seria dito, mas sabiam que o espírito estava ali e isso os reconfortava.

Quanto a Loba Branca, embora soprasse um vento frio, sentia-se quente, como que acolhida num abraço de mãe. O vento soprava ao seu redor e, em sua canção característica, trazia as palavras do espírito amigo:

- Filha querida, o que você vê é sangue humano, pois um humano esteve à beira desse córrego na noite passada. Ferido e sedento, deitou-se próximo da água para aliviar a sede. Lutou contra a inconsciência, contra a dor e contra o medo, tendo por fim seguido seu caminho. Mais além não consigo enxergar, pois uma névoa negra nubla meus olhos. Isso também me preocupa...


Os dois lobos apenas ficaram imaginando o que poderia estar sendo dito, já que Folha de Outono não se revelava para eles, apenas para sua pupila. Kord, respeitosamente, mantinha-se silencioso, aguardando o momento em que sua xamã lhes contaria a verdade sobre o ocorrido. Quando os sinais do espírito sumiram, quando o calor do verão retornou, quando as folhas ficaram novamente verdes, é que o Lobo Alpha sentiu-se à vontade para falar:

- E então, Loba... alguma luz? 

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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Ter Ago 26, 2014 9:48 pm

Podia ser estranho e até inquietante aos olhos dos outros, mas as poucas vezes em que o coração da lupina encontra paz, é na presença de Folha de Outono.

Desde pequena, é a única presença em vida que nunca falhara consigo, que sempre esteve ao seu lado, ajudando, acolhendo, reconfortando.

Sentir o vento em seu rosto, era como se sentisse as próprias mãos de Folha de Outono acariando seu rosto, um afago mais que precioso.

Passado o primeiro momento de alegria, as notícias não eram tão boas, talvez ele não tivesse muito tempo reservado à conversa e foi embora, deixando a lupina com algumas dúvidas, mas que logo sanaria.

Antes de se levantar, agradece à Folha, mesmo sabendo que já partira dali: “Muito obrigada, mais uma vez vindo me auxiliar meu pai. Logo tornaremos a nos encontrar.”

Ouvindo a voz do alpha, Loba Branca levanta-se e bate a terra que ficou em sua roupa. Com um olhar preocupado, responde os dois que aguardavam ansiosamente.

-O sangue é de um humano, que esteve aqui noite passada. Ele chegou muito ferido à beira do rio, com sede, lutou contra a inconsciência e seguiu seu caminho, por ali – Aponta a direção com o dedo – Mais a frente, não sei o que aconteceu, pois há um tipo de névoa negra bloqueando a visão de Folha de Outono.

Ela faz uma pausa, olha para o caminho que o humano percorreu, seu semblante estava sério, como se alguma coisa grande estivesse por acontecer. Respira fundo,fecha seus olhos por uns instantes e retoma a fala:

- Kord, peço permissão para seguir o rastro do humano e averiguar o que aconteceu de verdade. Estou preocupada, as coisas andam muito quietas, tanto aqui em nossas terras como na Umbra.

Ela olha para Fúria Silente, e continua.

-Eu e Fúria podemos seguir o rastro, aproveitar que o sol está no alto e demorará a se por.
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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Qui Ago 28, 2014 4:47 pm

O alfa era um sujeito duro, consigo mesmo e com os que lhe rodeavam. Era um sujeito que não admitia falhas, haja vista que ele próprio já falhara muito na vida e sabia o quanto custava um erro. Por isso mesmo ficou tão consternado ao perceber que um indivíduo havia adentrado a floresta sem que sua presença fosse notada, a não ser quando já não estava mais às vistas. Contudo, se estava realmente ferido, provavelmente não teria ido longe. Era preciso, portanto, caçá-lo.

- Preocupa-me o fato de este sujeito ter entrado nos limites de nosso lar, ferido, e mesmo assim não ter sido detectado. Ou ele tem meios para não ser encontrado, ou é mais habilidoso que nós mesmo debilitado. Há uma terceira alternativa que me preocupa mais que as outras: ele pode ter entrado aqui saudável e ter sido ferido por algo que já se encontrava aqui. Mas nós sabemos que ninguém de nossa aldeia foi responsável. Então, que tipo de criatura estaríamos enfrentando? - deu um longo suspiro, impaciente por estar enfrentado tantas dúvidas quando seu trabalho era ter todas as respostas para manter a aldeia segura. - Só teremos a resposta quando esse homem for encontrado vivo.

Observou o ambiente ao redor enquanto Loba Branca falava. Por mais que odiasse, Kord deveria ficar para proteger o restante da aldeia caso estivessem sendo vítima de alguma ameaça. Assim, com o coração pesado, aquiesceu.

- Sua ideia é a melhor. Não gosto de ficar só esperando, mas não posso deixar a aldeia quando temos a expectativa de enfrentar alguma ameaça.

Kord parecia querer dizer algo à loba, mas com o garoto ali ao lado não seria possível. Contudo, seus olhos falavam mais do que suas palavras. O gigante olha para Loba Branca com olhos suplicantes. Ela de imediato soube o significado daquele olhar: "Tome cuidado, volte viva."

- Vão. Com a bênção de nossa mãe Gaia. Caso necessário, chamem-me. Posso chegar rapidamente a qualquer ponto da floresta.

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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Qui Ago 28, 2014 8:06 pm

Esperava apenas pela permissão do alpha para prosseguir. Estava tão ou mais preocupada que ele, sua intuição poucas vezes a traiu, e desta vez, algo soprava em seus ouvidos que alguma coisa muito séria estava para acontecer, talvez, encontrar o humano com vida seja a resposta para a suas dúvidas.

Antes que partisse com Fúria, Loba Branca volta a falar com o alpha.

- Durante a minha ausência, caso aconteça alguma coisa relacionada a Umbra, o Notícia Ruim é o mais adequado para lidar com essas questões, o que melhor absorveu meus ensinamentos.

Ela pára por um instante, passa a mão pela sua roupa, como se estivesse a procura de algo, rasga um pedaço de pano de sua blusa e embrulha alguma coisa que retirou do bolso. Dá um passo a frente, mas mantendo uma certa distância do alpha, estica as mãos para ele, aproveitando que Fúria não estava olhando em seu rosto, a lupina encara os olhos do alpha como a tempos não fazia, seus olhos ficaram vidrados nos deles por aqueles segundos, que pareceram uma eternidade.

Spoiler:
 
-Este é um amuleto, que só o alpha da alcateia poderá usar em situações difíceis. Mas ninguém poderá tocar, muito menos vê-lo, apenas você.

Espera que Kord o pegue, abre um pequeno sorriso, mas logo voltando a expressão séria de antes. No fundo, o lobo sabia que não era nenhum amuleto, que era um presente da Loba para ele.

Antes de partir, ela diz uma última frase.

-Voltaremos assim que puder, faremos de tudo para que encontremos o humano vivo.

Dito isso, abaixa a cabeça em sinal de respeito e vira-se para Fúria, indicando com as mãos o caminho.

Começou a correr o mais rápido que conseguia, e durante a sua corrida, transforma-se em um lobo com os pelos brancos como a neve e olhos rubros como o sangue. Utilizaria da sua forma animal, não chamando muito atenção e aproveitando que o seu faro era mais apurado.
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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Sex Ago 29, 2014 5:14 pm

Loba Branca sentia o coração pesado, e sentia também que os olhos do alfa estavam grudados nela quando partiu correndo. Sabia também que Kord estava furioso, conhecia-o bem demais para saber o quanto aquilo era difícil para ele. Não estar no controle de todos os eventos era uma tortura para o líder. Por mais que fosse nobre a sua missão de proteger a aldeia contra algum possível ataque surpresa, ficar parado à espera de notícias não era do feitio do alfa.

Contudo, até mesmo as dores se afastam quando Loba Branca assume a forma lupina e ganha velozmente a sombra das árvores. Ao seu lado, um lobo marrom, um pouco menor que seu próprio tamanho, corre como se a vida dependesse disso. Fúria Silente assume a postura de seguidor, mantendo-se um pouco atrás de Loba Branca, de modo que a beta possa conduzir a corrida.

Nesta forma, com os sentidos apurados, Loba Branca pode sentir a própria floresta vivendo ao seu redor. O som dos galhos crescendo frações de frações de milímetros a cada segundo, o som do vento lá longe nas montanhas descendo suave sobre as árvores, o cheiro da grama nova nascendo sob seus pés: é como descobrir um mundo novo, que vive e viceja. Estava correndo sobre a sua terra, e não permitiria que nada interferisse no sagrado equilíbrio daquele lugar. Resoluta, apertou o passo rumo ao coração da floresta.

Com o tempo, a trilha do intruso, que antes era clara e fácil de seguir, desapareceu. Já estavam ambos praticamente fora do território dos lobos: as árvores já rareavam, mostrando o fim do bosque. Naquele local estancaram e, por mais que procurassem, foi impossível recuperar a trilha. A princípio, a dúvida corroeu a lupina, que, por sua personalidade, provavelmente odiaria voltar à aldeia sem qualquer resposta. Contudo, aquele conhecido sopro de brisa outonal soprou-lhe no ouvido uma palavra: “montanhas”.

Foi quando, apurando a audição, ambos os lobos distinguiram claramente o gemido sofrido de alguém. Erguendo os olhos, as imensas montanhas cinzentas assomavam à sua frente, ameaçadoras, quase como que reprovando a entrada de visitantes. Baixinho, Fúria Silente fez um som que pareceu a Loba Branca o medo. Apesar de viverem sob a sombra das montanhas, nenhum dos lobos gostava do lugar...

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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Sab Ago 30, 2014 8:33 pm

Será que seu coração estava certo e de fato, haveria uma nova ameaça à paz da aldeia? É com essa dúvida, que Loba corre em um ritmo acelerado, seus músculos, cada vez mais visíveis. Estava na forma em que mais gostava, pode sentir perfeitamente o limiar entre a razão e a fúria bestial, andando sempre de mãos dadas, como se competissem pelo centro de atenções de cada lobisomem.

Mas nesta tarde, quem estava no comando era a razão. Após percorrerem a floresta inteira sem encontrar o humano, a lupina estava ficando irritada, não voltaria para a aldeia sem ao menos uma pista, e ela queria voltar com tudo resolvido.

Chegando aos pés da montanha, sempre majestosa, soberana e, acima de tudo, ameaçadora. Ouve o sussurro de Folha de Outono em seu ouvido, no mesmo instante, direciona o seu olhar para o que estava a sua frente, mesmo não gostando da ideia, deveriam alcançar o humano.

Ao ouvir os gemidos baixo do mesmo, a lupina ameça a correr no mesmo instante, mas pára ao perceber que seu companheiro estava com medo das montanhas. Fica parada por alguns instantes apenas observando a magnitude daquele momento, depois que se acalmou, virou-se para Fúria Silente.

Com toda a sua confiança, a lupina apenas fica parada, encarando os olhos do lobo, seus olhos rubros como o sangue, o encara tentando lhe trazer a confiança novamente, medo, é um sentimento que todos deveriam ter, evitaria muitos problemas. Mas neste caso, o medo não cabe, é o bem estar da sua aldeia que estava em jogo, e precisava de alguém destemido ao seu lado.

A beta começa a rodear vagarosamente envolta do outro lobo, emitindo algum tipo de áurea azul claro, que envolvia o corpo do lupino. Ao término da volta pelo corpo dele, completando a áurea, a beta pára mais uma vez em sua frente, encarando mais uma vez seus olhos.

Eram os olhos de um animal feroz, destemido, que não deixaria nada acontecer com sua aldeia e nem com seus iguais. Terminando isso, com um rosnado baixo, a loba começa a correr em direção as montanhas, esperando que Fúria fizesse o mesmo.

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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Sab Ago 30, 2014 8:51 pm

O jovem lobo mudo, por um lado, ficou agradecido a Loba Branca pela injeção de coragem, mas também sentiu-se envergonhado por seu medo ter ficado tão explícito, de modo que, resoluto, valendo-se da coragem injetada em seu corpo e mente, decidiu ir até o fim naquela busca, mesmo que tivesse de encarar o terror das montanhas, altas, cinzentas, medonhas e geladas.

Assim, após o pequeno ritual de Loba Branca, ambos continuaram sua corrida desenfreada rumo ao terror das montanhas, vencendo a cada passo a incerteza do desconhecido: por mais que fossem experientes, nenhum deles havia adentrado ainda aquele território, exceto para rondas limítrofes. Loba Branca não conhecia ninguém além de Kord que havia ultrapassado os limites mais externos das montanhas, e mesmo o alfa não gostava muito de falar sobre o que havia lá.

A xamã, contudo, podia compreender um pouco desse desconforto: atravessada a fronteira de sua terra e uma vez dentro do território das montanhas, o véu que separava o mundo físico da Umbra era tão fino quanto no bosque dos lobos, mas os espíritos que lá viviam eram mais irrequietos, ariscos e perigosos. Qualquer lobo tinha uma ligação intrínseca com a Umbra, mesmo que não tivesse o poder de atravessar a qualquer momento, por isso podiam sentir o desconforto oriundo de espíritos mais hostis.

De todo modo, também era um lugar inóspito, em que não era possível arrumar comida. A geografia era desconhecida, as trilhas igualmente. Enfim, era um local para o qual Kord certamente gostaria de acompanhá-los, afinal era o que melhor conhecia a região. Mas o alfa não estava lá. Era Loba Branca e Fúria Silente que precisavam resolver esse impasse, e lá estavam os dois.

As montanhas estavam mais longe do que havia imaginado a princípio. Percorreram quase meia dúzia de quilômetros antes de o terreno começar a ficar pedregoso e elevado. Havia diversas cavernas em pontos mais elevados e também uma trilha bastante visível entre as pedras. Foi por ela que subiram, e subiram, sempre seguindo a direção dos sons que pareciam ouvir.

Cerca de 200 metros acima até seus músculos lupinos sentiam o peso da subida e do cansaço, mas finalmente podiam ouvir de forma clara o gemido dolorido de alguém. Havia uma caverna um pouco mais acima e, de lá, claramente vinha o som de alguém gemendo de dor, entre frases desconexas que os lobos não conseguiam compreender.

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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Sab Ago 30, 2014 10:11 pm

As montanhas era um lugar perigoso e totalmente desconhecido para ambos os lobos. Mas mesmo com todos os medos, receios, avançam para tentar desvendar o que aconteceu com o humano.

Cada passo que avançavam, uma certeza invadia o coração da lupina: Kord ficaria extremamente irritado, pois sairam dos limites da aldeia, não avisaram ele, e caso aconteça alguma coisa com qualquer um dos dois lobos, dificilmente conseguiria encontrá-los nas montanhas.

Mas era um risco que Loba Branca resolveu correr, seu coração estava inquieto, também estava com medo do desconhecido, podia sentir que a passagem da Umbra era mais fina naquele local. Mais fácil de entrar e de sair.

Redobrando os seus cuidados, faz uma pequena prece: ‘Meu pai, guia meus passos, para que eu consiga resolver logo essa situação e voltar em segurança para a aldeia, mas acima de tudo, se algo acontecer, que eu consiga defender Fúria Silente.’

Assim que termina a sua prece, escuta os gemidos do humano, vindo de uma caverna. Loba Branca vira-se para Fúria, fazendo sinal para analisarem o terreno em volta, se não tiver nada suspeito em volta, ela voltara a sua forma humana, e depois vai entrar na caverna, em passos lentos, analisando a situação do humano, se estava muito ferido, se estava armado, e principalmente o que tinha dentro da caverna além dele.
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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Seg Set 01, 2014 4:18 pm

Ambos os lobos dão uma boa olhada no terreno ao redor, sem que encontrem quaisquer vestígios de perigo, além do próprio perigo de estarem longe de seus territórios e adentrando uma região desconhecida. Após o que entram silenciosamente na caverna, que não era funda nem escura: não passava de uma reentrância mais profunda na rocha, o suficiente para proteger de vento e chuva, mas não de olhos hostis.

Lá dentro estava deitado um homem (bom, pelo menos tinha aparência hominídea). Vestia-se com uma roupa simples: calças e camisas surradas, de modo que, por sua vestimenta, era impossível reconhecer sua origem. Aproximando-se mais, puderam perceber vários cortes em seu peito, costas e braços, de modo que sua camisa estava em frangalhos e empapada de sangue. O homem apresentava uma coloração esbranquiçada, de modo que claramente se percebia a quantidade imensa de sangue que perdera.

O rosto do estranho era uma máscara de dor e medo. Seus olhos vidrados puseram-se sobre Loba Branca e Fúria Silente, mas ele não os viu realmente. Eram olhos vazios, olhos de quem enxergava tão-somente a morte diante de si. A voz saía como um sussurro, mas trazia palavras cujo sentido os lobisomens não conseguiam apreender, embora compreendessem a língua:

- Não, não, não! Não era aqui, não esta época, não esse lugar! Preciso voltar! Não me deixe presso nesse lugar! Já não exergo mais meu tempo! Por favor!!!

E assim ficava, repetindo quase sempre as mesmas palavras, geralmente uma variação mais ou menos desesperada dessa ladainha, parando apenas para tomar fôlego, mas a cada retomada sua voz ficava mais fraca. A morte estava acariciando o rosto do homem, acalentando-o em seus últimos momentos...

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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Seg Set 01, 2014 9:55 pm



Logo que entra na caverna, a loba observa o humano, todo ferido, quase sem sangue em seu corpo, pois deixou pelo caminho.

O humano, já fraco, balbuceia algumas coisas sem sentido, ao menos para ela, naquele momento. Assim que ele coloca os olhos nela e em Fúria Silente, fita seus olhos, tentando enxergar além de sua íris, mas nada vê além da morte.

Prevendo possíveis ataques, pois ela e Fúria podem não ser os únicos atrás do humano, levanta-se calmamente, fazendo sinal para que Fúria ficasse de olho no humano.

Fecha seus olhos, e por alguns segundos, um vento começa a soprar um pouco mais forte que o normal, trazendo algumas folhas consigo, elas começam a bailar na porta de entrada da caverna, formando um tipo de linha no chão, emitindo uma luz verde bem claro, quase imperceptível aos olhos.

Fúria podia sentir a energia daquela barreira, aquilo seria a proteção dos três contra espíritos mal intencionados, eles rondam as pessoas no final de sua vida.

Ainda de olhos fechados, mais uma vez, suplica pela ajuda de seu mentor, precisaria estancar o ferimento do homem, fazer alguma coisa para que ele chegue vivo a aldeia.

“Meu pai, mais uma vez, peço o seu auxílio. Não sei estancar ferimentos de humanos, não tenho a mínima noção, ajude-me a socorrer essa pobre alma para que ele chegue vivo e com a mente sã a nossa aldeia, precisamos interrogá-lo.”

Aguardando as instruções de seu mentor, Loba Branca volta-se ao humano, antes de tentar salvar a sua vida, tentaria arrancar alguma coisa dele.

- Me diga em que época e em que lugar, e não o deixarei preso aqui. E principalmente, conte-me quem te fez esses ferimentos, podemos arrumar um jeito de curá-lo, apenas diga-me, quem lhe fez isso? Diga que eu lhe liberto.

A loba em forma de mulher, fitava os olhos quase sem vida do homem, mas atenta a todos os seus movimentos e pronta para se defender ou contra atacar.

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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Ter Set 02, 2014 6:07 pm

O breve ritual da lobisomem alcançou sua finalidade, de modo que, tão logo o local se tornou protegido pela barreira, os dois lobos sentiram crescer em si uma sensação de segurança. Contudo, o homem só se tornou mais agitado, ao invés de apenas sussurrar, agora gritava abertamente.

- Não, não, não, NÃO! Por favor, me leve, me leve de volta!! Minha mente se perdeu!!

Apesar de a barreira protegê-los de intrusos, ela não filtrava o som. Assim, qualquer pessoa em um raio de alguns quilômetros provavelmente estaria escutando aqueles gritos desesperados. Se pretendiam ficar em segredo, o plano dos lobos já estava sensivelmente despedaçado. O homem agora arfava pesadamente, envolto num terror que apenas ele conhecia, apenas ele visualizava.

O vento soprou novamente suave, e Loba Branca sentiu que seu mentor estava ali, embora não tão próximo quanto gostaria. Na verdade, Folha de Outono parecia distante mesmo, como se algo estivesse atrapalhando a comunicação de ambos.

Filha, não há o que eu possa fazer. Os ferimentos deste homem não são naturais, não foram feitos por nada que eu conheça. Sua cura está além de minhas habilidades. - sua voz parecia distante, quase inaudível, e parecia ficar mais baixa a cada palavra - Ademais, alguma força me mantém afastado...

Depois disso, a voz do espírito sumiu. Não havia mais contato, não ali. Quando então a lobisomem falou com o homem, ele finalmente olhou-a nos olhos e, dessa vez, seu olhar não era vazio: eram olhos negros cheios de horror, cheios de desesperança, cheios de desespero. O homem gritou com todo o ar que possuía em seus pulmões.

- MORDZULMO!!

O chão tremeu, todo som que os lobos ouviam cessou, parecia que alguém lhes tapara os ouvidos por uma fração de segundos. Quando voltaram a escutar, apenas o grito de morte do sujeito lhes chegou aos ouvidos. Sentiram como se suas entranhas estivessem sendo reviradas por uma luz invisível e, quando tudo passou, não havia homem algum na caverna, apenas o barulho insistente do vento batendo nas concavidades da montanha.

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Heidi Cavalieri
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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Sex Set 05, 2014 12:30 am

Os temores da lupina se confirmaram: os ferimentos no homem não foram feitos por algo humano. Apenas algo sobrenatural e muito forte passaria pela aldeia e despercebida pela aldeia e todos os seus membros muito bem treinados.

Sabia também, que Folha de Outono se afastaria com a barreira que criou, mas era preciso, pois estavam em um local desconhecido, hostil, e a barreira com a umbra era extremamente sensível. Ademais, conseguiu a informação que gostaria com seu mentor.

Porém, seus planos fracassaram de todas as formas. O suposto ‘homem’ tinha habilidades inusitadas para um humano, além de não falar muitas coisas, simplesmente desapareceu. Mas antes que isso acontecesse, pode ver o terror e o desespero de sua alma, e talvez com o grito que tenha dado, possa ter invocado algo muito terrível para próximo deles.

O coração de Loba Branca começa a pulsar muito forte, por alguns instantes não sabia o que fazer, até que virou-se para Fúria Silente e disse:

- Temos que voltar o mais rápido possível para a aldeia. Assim que sairmos daqui, seremos caçados, mas se esperarmos, estaremos encurralados. Nossa chance é sair agora. Me siga, não se afaste de mim, e aconteça o que acontecer, siga o caminho até a aldeia e diga que espíritos poderosos rondam nossas terras.

Dito isso, volta a sua forma de lobo, teria mais agilidade para correr, espera alguns instantes para que o seu companheiro assimile suas palavras, e em seguida, sai correndo da caverna, o mais rápido que seu corpo consegue, tentando se localizar e identificar possíveis espíritos inimigos pelo caminho. Estavam longe da aldeia e iriam demorar a chegar até as suas terras.
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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Sab Set 06, 2014 8:25 am

Os dois lobos correram com urgência. Não se demoraram nas montanhas na tentativa de entender o que acontecera. Sua urgência os impelia para a aldeia no bosque lá embaixo. Correram como se a vida dependesse disso. E, talvez, de fato dependesse. Correram como se seus pés queimassem no solo. Correram como se voassem. Correram como se nada mais houvesse no mundo de importante além de correr.

O caminho de volta, devido à urgência, pareceu duas vezes mais longo que durante a ida até lá. Parecia que quanto mais caminhavam, mais lentamente avançavam. Era uma sensação que oprimia os dois lobos. Com o tempo, o que era apenas uma sensação passou a ser quase uma certeza: de fato, pareciam avançar lentamente, quase como se alguma vontade externa lhes barrasse o caminho. Fúria Silente gania baixinho enquanto fazia força pra avançar, mas cada passo seu era mais lento que o anterior.

Mesmo quando adentraram as fronteiras do Bosque dos Lobos a sensação não cessou. Pareceram ter de caminhar durante horas para chegar às imediações da aldeia e ouvirem o uivo mais potente que jamais haviam ouvido em suas vidas até então. Havia dor e lamento naquele uivo, mas ambos reconheceram a voz de Kord ali.

Não é fácil descrever o que viram ao chegar à aldeia. Ou melhor, o que não viram. Já que não havia mais aldeia alguma no local em que deveria estar. Era como se o local no qual estivera a aldeia não fizesse parte da floresta. A própria vegetação parecia diferente, o solo era diferente, até mesmo o ar que se respirava lá era diferente, embora tudo estivesse perfeitamente encaixado como sempre fora. Mas é como se aquele pedaço de chão em que antes estivera a aldeia houvesse sido substituído por outro, simplesmente.

Kord estava caído de joelhos olhando para o espaço onde antes estava seu lar. Não havia lágrimas em seus olhos, pois elas já haviam secado há muito tempo por outras dores da vida. Havia apenas incredulidade, e uma inegável expressão de impotência, de quem vira tudo acontecer e nada pudera fazer. Sequer notou a chegada de Loba Branca e Fúria Silente.

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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Dom Set 07, 2014 6:50 pm



A cada passo que avançam, seus músculos doíam como se pequenas agulhas entrassem sobre sua pele, mas superando a dor, com uma aflição imensa em coração, a lupina avançava o máximo que conseguia. A corrida para a casa, talvez ainda houvesse alguma esperança de combater o que quer que venha a aparecer.

Fúria Silente já não conseguia esconder suas dores, seus ganidos baixos podiam ser ouvido pela Loba, mas nesse momento, nada poderia fazer a não ser avançar, avançar e avançar. O caminho não só parecia estar longo demais, como estava realmente longo demais. Não sabia que tipo de poder pode fazer isso, mas sabia que não era natural.

Assim que entram no floresta, escuta o uivo poderoso de Kord, tão cheio de dor, tão carregado de ódio, raiva, que por alguns instantes pensa em parar a corrida e esperar um pouco, mas aquele uivo apenas confirmou o seu temor: esse poder que estava rondando a aldeia, chegou antes dela, e nada pode fazer.

O uivo do alpha parece que lhe deu mais força e ânimo para continuar a corrida, seus músculos agora doíam como nunca, mas suas dores foram esquecidas por alguns minutos, e quando chega onde deveria estar a aldeia, observa Kord desolado de joelhos no chão, apenas observando o que deveria ser a sua casa, a sua família.

Vendo aquela cena, parece que o peso do mundo caiu sobre suas costas, a lupina, já sem forças, vai ao chão, ainda em sua forma de lobo, observa atentamente cada detalhe, tentando entender o que estava acontecendo.

Seu coração começa a acelerar, sua dor, já era inexistente, mas o seu desespero, crescia a cada instante. O ar de seu pulmão começa a falhar, tinha que puxar com grande esforço, e em um misto de dor, desespero, ódio, começa a uivar, suas dores foram descarregadas naquele gesto, ou ao menos uma parte delas.

Praticamente já sem forças, deitada no chão, volta a sua forma humana. Loba Branca segura um punhado de terra na mão levando ao nariz, tentando identificar qualquer vestígio de alguma pessoa ou espírito que esteve por ali.

Mesmo com o coração na mão, ela se recompõe e aproxima-se de Kord, ficando de joelhos na sua frente, sem se importar com Fúria Silente, ela passa uma de suas mãos pelo rosto do alpha, e fala baixinho:

- O que aconteceu aqui? Cadê o nosso lar?
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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Ter Set 09, 2014 1:04 pm

Por mais que a xamã farejasse, sentisse, ouvisse, observasse, nada ao redor lhe fornecia qualquer solução acerca do ocorrido. Contudo, havendo presenciado o sumiço de um homem diante de seus olhos, Loba Branca sabia que, muito provavelmente, os dois eventos estavam ligados, embora não conseguisse, ainda, achar o elo que unia as duas partes do mistério.

Observou que Kord se deu conta de sua presença apenas por um leve balançar de orelha, da mesma forma que um lobo quando escutava algo. O imenso lobisomem não se moveu, sequer olhou para Loba Branca, mas ergueu os olhos para a clareira onde estivera a aldeia e sua foz de trovão ressoou carregada de um ódio jamais visto pelos dois companheiros restantes:

- Eu não pude acompanhara tudo. No momento em que a Aldeia sumiu eu percorria a mata, pois percebi a presença de um invasor. Persegui um homem vestido com capuz e capa negros, que realizava algum estranho ritual em nossas terras. Lutei contra ele, mas o miserável desapareceu diante de meus olhos quando lhe acertei o primeiro golpe. Então a terra tremeu com a força da ira dos deuses e voltei correndo para a aldeia. - nesse momento, Kord ergueu os braços abertos, como se mostrasse aos dois o que estava adiante. Loba Branca percebeu então que estava muito ferido, embora desse pouca ou nenhuma atenção aos próprios ferimentos - E quando cheguei, estava exatamente como vocês veem agora. Sem nenhuma explicação, sem nada além de um tremor de terra.

Só então virou seus olhos negros para a lupina. Havia ódio ali. Ódio pelas dezenas de vidas estranhamente "perdidas". Ódio por toda uma vida de lutas inglórias para proteger um povo e vê-lo ser simplesmente "sugado" por alguma força incomensurável e incontrolável. Havia, sobretudo, ódio por ter sido tão impotente no momento mais necessário.

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MensagemAssunto: Re: Prólogo - Loba Branca (Heidi)   Ter Set 09, 2014 10:05 pm

A cada palavra desferida pelo alpha, o ódio de Loba Branca apenas aumenta, mas tenta não demonstrar, já havia muito sentimento ruim naquele momento, esquentar a cabeça e explodir de vez não iria trazer sua aldeia, sua família de volta.

Conteve-se apenas a fechar sua mão, e apertava cada vez mais, descontava toda a sua raiva ali, podia sentir suas unhas começando a cravar a carne, mas ao menos aliviava a tensão e fazia com que a lupina não se perdesse em meio a tantos sentimentos misturados.

Escuta com atenção as palavras de Kord, e quando menciona o tremor no chão e o desaparecimento do homem, desvia seu olhar para Fúria Silente por alguns instantes, aos poucos, os fatos estavam começando a ser ligados, mas o sentido, a razão de tudo isso, estava muito nebuloso aos olhos da xamã.

Ao fim das palavras do lobo, a xamã passa seus olhos pelo seu corpo, analisando as suas feridas, lentamente, leva uma de suas mãos até o ferimento mais exposto, suja sua mão com sangue e então levanta-se.

- Pela primeira vez em toda a minha vida, não tenho a menor noção do que estamos enfrentando. Não sei seus poderes, não sei sua origem, muito menos sei o que quer em nossas terras, com a nossa aldeia, nossa família.

Faz uma pausa, seus olhos agora percorrem o vazio, onde deveriam estar a sua família, os seus filhotes, as suas coisas, fecha a mão novamente, seus olhos agora não conseguem disfarçar o ódio que sentia com toda essa situação.

- Mas sei de uma coisa, o estranho que estava ferido, que perseguimos além das Montanhas, simplesmente desapareceu na nossa frente, exatamente como você descreveu, Kord. Não eram ferimentos naturais, a mente do homem estava muito perturbada, e também não sei que tipo de poder é esse.


Estava de costas para os lobos, respira fundo, sentindo-se impotente perante toda a situação, seus olhos enchem-se de água, estava tentando ser forte, não transparecer toda a sua agonia, sua fraqueza, mas a situação estava desesperadora, e não contendo-se, as lágrimas começam a rolar pelo seu rosto, lágrimas de ódio, de rancor, de mais uma ferida aberta e que talvez jamais se fechasse novamente.

- Mas aqui eu faço um juramento a vocês dois, não importa quanto tempo leve, não importa para onde eu tenha que ir, não importa quem eu tenha que matar, torturar, dilacerar, eu descobrirei o culpado por toda essa situação, entrarei na Umbra e vasculharei até me baixo da última pedra, nem que seja a última coisa que eu faça em vida, eu vou descobrir o que aconteceu aqui.

Engolindo o seu ódio, secando os seus olhos, ela vai até Kord, ajudando ele a se levantar.

- Agora, temos que cuidar dos seus ferimentos, são sérios, muito sérios. – Ela olha bem fundo nos olhos do alpha – Não vou perder mais ninguém hoje, ninguém. Vamos, tem um casebre mais ao norte da floresta, lá estaremos seguros, podemos cuidar dos seus ferimentos e eu posso entrar na Umbra por lá.
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